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Viver preocupado com as conquistas dos filhos pode impedi-los de vencer certos obstáculos

conquistas dos filhos

Nossa parceira Mariana Abuhamad, psicóloga especializada em reabilitação neuropsicológica, trouxe para a conversa um tema difícil: os fracassos dos nossos filhos. Vamos ver o que ela tem a nos dizer?

Para começar, é importante que se entenda que intervir em possíveis fracassos dos filhos – mesmo que essas intervenções sejam por amá-los demais e para evitar sofrimentos – pode impedi-los de aprendizados significativos.

Quando a criança se depara com uma situação de difícil saída e de possível fracasso, ela aprende muito durante o processo. Aprende principalmente a ser criativa na solução de problemas, já demonstrando a autonomia que tanto desejamos aos filhos. Ela também aprende a ser conscienciosa, honesta e responsável pela solução do problema e pelas consequências dessas soluções.

Porém, se esta criança tem pais ansiosos e inseguros, que estão a todo momento intervindo para evitar o sofrimento do fracasso, muito provavelmente ela irá assumir menos riscos intelectuais e começará a acreditar que ela não é tão inteligente quanto todo mundo vive repetindo. E, portanto, o melhor é se manter em segurança.

Pois bem, é isso que queremos aos nossos filhos? Que não assumam riscos (claro que estamos falando de riscos que não estão vinculados à saúde e segurança da criança) por insegurança?

Se nos preocupamos demais com as futuras conquistas de nossos filhos e assumimos o controle destas, estaremos impedindo nossos filhos de vencerem os obstáculos do caminho. Ao oferecer tudo aos filhos, estamos nos esquecendo que as melhores experiências de nossa infância surgiram ao enfrentar desafios, ao tentar coisas novas; quando fracassávamos e tentávamos novamente até conseguir algo com as nossas próprias mãos.

Todas as crianças começam a vida motivadas pelo desejo de explorar, criar e construir. Quando os bebês dão seu primeiro passo, é porque são guiados a descobrir e dominar o seu entorno. Portanto, o mais importante no ato de criar os filhos é evitar que eles percam essa força interna. Tente se lembrar de seu filho bebê, engatinhando pela sala e tentando abrir as gavetas, colocando os dedos em tomadas, tirando os livros do lugar. Essa mesma força leva as crianças nos primeiros anos escolares a aprenderem os nomes dos planetas e o gênero de cada dinossauro.

Quando elas crescem, nosso objetivo deveria ser a preservação dessa curiosidade natural e da sede de descobertas. Mas, infelizmente, os métodos que utilizamos para mantê-las motivadas, como as recompensas externas (dinheiro, passeios, brinquedos), batem de frente com o que faz delas engajadas e interessadas.

Mas por que as recompensas externas não funcionam?

As recompensas externas, na verdade, funcionam a curto prazo, porém, perdem seu poder de controlar o comportamento na medida em que o tempo vai passando.

A longo prazo elas não funcionam pois minam a motivação intrínseca, já que as pessoas costumam preferir tarefas de sua própria vontade e escolha pessoal. Ao ter de escolher entre ficar presa a uma tarefa obrigatória e fazer outra coisa, as pessoas escolheriam algo que fosse fruto de sua autonomia e autodeterminação.

Podemos estender essa lógica ao trabalho quando adultos. Boa parte das pessoas que conheço, inclusive as que recebem altos salários, são insatisfeitas com seus empregos, pois o dinheiro (recompensa extrínseca) não é o motivador. Ele controla o comportamento do trabalhador, mas não o motiva. Somado a isso, é importante relatar que tudo que os humanos percebem como controle se opõe à motivação de longo prazo, e isso também vale para o aprendizado.

Quer testar o que falamos aqui?

Entre no quarto de seu filho mais novo e se ofereça para brincar com ele. Se você seguir o roteiro estabelecido por ele, tudo terminará bem. No entanto, se começar a impor seus objetivos e tentar forçar novas direções a diversão chegará logo ao fim.

Por fim, é claro que sabemos que não é possível permitir que nossos filhos, a depender da fase de desenvolvimento que estão, decidam por si mesmos o que devem ou não fazer.

Porém, assim que seu filho for capaz de trabalhar sozinho, e talvez um pouco antes de se tornar independente, ofereça-lhe alternativas. Faça com que suas expectativas sejam negociáveis. Por exemplo, se a sua expectativa é de que seu filho faça a tarefa de casa a tempo, esclareça a expectativa para a criança, mas deixe que seu filho (se estiver em idade mais velha) decida onde, quando e com quem fará essa tarefa. Isso não significa que você não tem voz, mas significa deixar a estratégia que não funciona de lado e ser criativo ao educar os filhos.

Vamos continuar essa conversa em um segundo momento falando um pouco mais sobre autonomia!

Dica de Leitura: Pais Superprotetores, Filhos Bananas – Autora: Jessica Lahey

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